Nossa padroeira


Nossa Senhora de Fátima
Uma semana e um dia após a sagração episcopal, em Roma, do Monsenhor Eugênio Pacelli, futuro papa Pio XII, uma garotinha de um longínquo e desconhecido lugarejo de Portugal transmitia uma notícia que haveria de correr mundo: "Ó mãe, eu hoje vi Nossa Senhora na Cova da Iria". Esta exclamação foi transmitida de boca em boca, mas não se tornou sensação nos meios de comunicação social de um dia para o outro. Nem mesmo nas aldeias vizinhas causara grande impressão. Numa paróquia vizinha, numa festa do Sagrado Coração de Jesus, um orador sagrado fazia correr lágrimas abundantes aos seus paroquianos, "quando se dirigiu às crianças, pedindo à Virgem do Céu pela paz do mundo e pela vitória das nossas armas". Nenhuma referência aos fatos de Fátima. Era o dia 25 de Junho, quase mês e meio depois da primeira aparição e poucos dias depois da segunda, em que se tinha juntado aos videntes cerca de meia centena de pessoas.Nossa Senhora de Fátima.
São do dia 13 de Julho de 1917 os primeiros documentos conhecidos: umas fotografias tiradas aos videntes junto da igreja paroquial. Do dia seguinte, há uma carta particular escrita do Pedrogão, Conselho de Torres Novas, em que se diz dos acontecimentos da véspera: "Não calculas como aqui se fala naquela aparição. F. foi lá ontem e diz que viu as pequenas e que estavam lá umas senhoras de Santarém que lhes tinham tirado o retrato".
Só nove dias depois desta carta, o jornal "O Século" de Lisboa, através da correspondência de uma aldeia vizinha de Fátima, se fazia eco daquilo que era já objeto da curiosidade pública: corria "com insistência o boato de que, em determinado ponto da serra de Aire, apareceria, no dia 13 do corrente, a mãe de Jesus Cristo a duas criancinhas, a quem já por diversas vezes tinha aparecido e no mesmo local". No dia 13, efetivamente, despovoara-se para Fátima grande multidão. Haviam-se juntado na Cova da Iria "milhares de pessoas", "vindo de longínquas povoações algumas delas". Segundo o depoimento de uma testemunha recolhido pelo correspondente, uma das videntes dissera que "via uma espécie de boneca muito bonita que lhe falava. Tinha, dizia, um resplendor em torno da cabeça e chamava-a para junto de si, numa voz muito fina e melodiosa. Entre muitas coisas que lhe disse, a principal foi anunciar a sua reaparição do dia 13 a um mês e no mesmo sítio, aparecendo ainda mais outra, para declarar o motivo por que tinha vindo ao mundo". Apesar de confessar que acreditava na sinceridade e verdade da pessoa interrogada, o correspondente acrescentava a sua opinião pessoal: "É minha opinião que se trata de uma premeditada especulação financeira, cuja fonte de receita existe nas entranhas da serra, em qualquer manancial de águas minerais que recentemente tenha descoberto algum indivíduo astucioso que, à sombra da religião, quer transformar a serra de Aire numa estância miraculosa como a velha Lourdes".

Lúcia, Francisco e Jacinta
Esta notícia foi transcrita, no dia 25, pelo jornal leiriense O Mensageiro, sem qualquer comentário. Um relato mais circunstanciado e já indiciador de uma outra perspectiva, surgia em O Ouriense, boletim semanal do Conselho de Vila Nova de Ourém, em artigo intitulado "Real aparição ou suposta ... ilusão".
Nele se falava das três crianças, da presença, "segundo os mais diversos cálculos", "de 800, de 1.000, de muito mais de 1.000, e de mais de 2.000 pessoas", "que, no mais admirável dos silêncios, ora rezavam, ora suplicavam, ora choravam; por último, foi necessário que almas piedosas, para livrarem as crianças dos confusos interrogatórios e de graves incômodos, que poderiam ter no meio de tão grande multidão, pegassem nelas e as metessem em automóvel e as afastassem à distância de dois e meio quilômetros para junto da igreja, onde foram fotografadas. Foi simplesmente admirável".
Foi a partir desta aparição de 13 de Julho, que os videntes falaram num segredo que a Senhora lhes tinha dito e na promessa de um milagre para o último dia, em 13 de Outubro. Entretanto, a 13 de Agosto, já se reuniram na Cova da Iria cerca de 10.000 pessoas, não se tendo porém verificado a aparição porque as crianças tinham sido levadas, nesse mesmo dia, para Vila Nova de Ourém. A aparição verificou-se no dia 19, no sítio dos Valinhos. Em 13 de Setembro, a multidão foi calculada em 30.000 pessoas.
Atraídas pelo anúncio do milagre prometido para o último dia, as estradas e os caminhos de Fátima encheram-se de curiosos e verdadeiros peregrinos. Os cálculos numéricos variam muito (entre 50.000 e 120.000 pessoas, aceitando-se comumente o número de 70.000).
Segundo a declaração dos videntes, Nossa Senhora identificou-se finalmente como a "Senhora do Rosário" e exortou a todos a mudarem de vida e a rezarem o terço todos os dias.
Mas o mais extraordinário foi a verificação do milagre prometido: a imensa multidão teve ocasião de presenciar o fenômeno solar que até os mais incrédulos testemunharam através da imprensa.
A forte impressão causada por estes fatos e por aquilo que se foi conhecendo do conteúdo da mensagem da aparição, nomeadamente o anúncio do fim da guerra que ensangüentava nessa época o mundo, provocou uma afluência contínua de pessoas àquele lugar.
Entretanto, a situação mundial foi sendo convulsionada com acontecimentos de extraordinário alcance: a revolução bolchevista russa, o agudizar do conflito mundial e depois o caminhar lento para a paz; em Portugal, o advento fugaz do sidonismo, nos finais daquele ano de 1917, também determinava uma modificação política no percurso histórico de Portugal, iniciado em 1910.
A nível local, era restaurada a diocese de Leiria, nos princípios do ano de 1918, aspiração de todos os antigos diocesanos leirienses logo desde o ano de 1882, nela sendo integrada de novo a paróquia de Fátima. Nos fins desse ano, finalmente, o estabelecimento da paz com o armistício de 11 de Novembro.