domingo, 18 de março de 2012

Quaresma, chamado à Conversão



Dom Pedro Carlos Cipolini
Bispo de Amparo (SP)

A Igreja Católica está no período de quaresma. As quaresmeiras floridas de roxo aqui em nossa região, nos recordam a quaresma que nada tem a ver com as superstições a seu respeito, as quais ainda perduram. E a quarta feira de cinzas, que abre a quaresma não existe só como purificação das festanças e abusos carnavalescos.

Quaresma; quarenta dias que precedem a Páscoa: vitória de Jesus o Filho de Deus, sobre a morte. Ele passou quarenta dias no deserto, orando, jejuando, enfrentando as forças misteriosas do mal e vencendo-as, antes de iniciar sua missão (Mt 4,1-11). A quaresma recorda este período convidando a imitar Jesus na oração, no jejum, na penitência que ajudam a reorganizar nossa vida interior, reorientando-a para Deus, num processo que a Biblia chama de conversão.

O termo conversão, pertence à tradição religiosa do judaísmo e cristianismo. Converter-se é afastar-se daquilo que toma o lugar de Deus em nosso coração (ídolos). É condição indispensável para entrar no dinamismo do Reino de Deus, é mudança de mentalidade e de conduta, é sair do pecado que nos torna inimigos de Deus.

O conceito de pecado é rejeitado pela sociedade hodierna, porém é realidade que aparece em todas as religiões e culturas com este ou outro nome. A existência do pecado é fruto de uma experiência pessoal e histórica do homem, sinalizado pelo sentimento de culpa que é um dado constante da psicologia humana.

As ideologias racionalistas e atéias da atualidade vinculam o pecado ou culpa às exigências da sociedade ou ao peso das tradições que condicionam a vida do indivíduo. A psicologia pretende dar uma explicação cabal para o pecado, mas não consegue. O mistério da iniqüidade (cf. 2Tas 2,7), presente na realidade ultrapassa qualquer explicação científica. É inútil cantar: “não existe pecado do lado debaixo do Equador...”, pois ele está aí com seu rastro de violência, ódio, divisão, injustiça, causando grande infelicidade e destruição.

O pecado nos ensina a Bíblia, é uma realidade, não podemos compreendê-lo totalmente. O que sabemos é que, com o termo pecado se quer designar um engano, uma atitude de quem erra o alvo, uma revolta ou desobediência a Deus que nos ama e que, pelos seus mandamentos nos ensina o caminho da felicidade. Assim o pecado como podemos auferir é amar tanto a si mesmo até o desprezo de Deus. E isto gera desequilíbrio interior, infelicidade. É uma decisão consciente de dizer não à voz de Deus que nos instrui desde o íntimo de nossa consciência. È deixar de fazer o bem acreditando que a maldade compensa.

Por tudo isso, podemos perceber o quanto de orgulho, vaidade e egoísmo, envolvem as ações pecaminosas. Basta pensar na “banalização da vida” presente em nossa cultura, que se caracteriza por instrumentalizá-la. Separa-se a vida dos vínculos transcendentes que garantem seu valor e sentido. A vida perde seu valor absoluto diante do dinheiro, da fama e da busca do poder.

A Campanha da Fraternidade deste ano, chamando a atenção para a questão da saúde pública, nos convida a contemplar a face sofredora de Cristo nos irmãos doentes muitas vezes condenados à morte por falta de assistência. Deus quer uma cultura da vida e o homem no pecado, uma cultura de morte.

Conversão portanto, é a palavra chave do tempo da quaresma. É possível libertar-se da escravidão do pecado. Jesus é nosso libertador, seguindo-o seremos livres. Em Jesus, Deus nos chama com amor para nos curar com sua misericórdia, das feridas provocadas em nós pelos pecados. Deus sabe que desde o nascimento nos sentimos incompletos, inseguros e desamparados.

Em meio á angústia existencial procuramos preencher nosso vazio com tantas coisas que ao invés de nos dar segurança e tranqüilidade nos escravizam e oprimem. Em Jesus Deus se mostra como valor absoluto, capaz de realizar-nos plenamente se correspondermos a seu amor. E amar a Deus é praticar seus mandamentos (1Jo 2,3-6).

Que a cor roxa da penitência quaresmal nos recorde o apelo do Senhor Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho”(Mc 1,15).

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