segunda-feira, 26 de dezembro de 2011


Um pastor na Gruta de Belém 
por Dom Murilo S. R. Krieger, Primaz do Brasil
Ela não sabe que eu não tenho jeito, que nunca tive jeito para pegar criancinhas recém-nascidas. Nem meus filhos eu sabia segurar direito, quando tinham essa idade. Bem que minha mulher repetia, cada vez: “Cuidado! Não é assim que se pega!” Sempre cuidei de ovelhas e elas, mesmo quando pequenas, são mais pesadas e duras que uma criança.
Minhas mãos estão cheias de calos; ou por causa do cajado que levo sempre comigo, ou pelo por tudo o que precisam carregar, cada dia. Por isso, quando a Mãe do Menino – Maria, dissera-me José -, quando tirou seu filho da manjedoura, dando-me a entender que ia colocá-lo em meus braços, minha vontade foi de lhe dizer: “Desculpe-me, mas não vou pegá-lo! Não tenho jeito, pois sou apenas um pastor!” O gesto dela, porém, foi mais rápido do que meus pensamentos: ainda pensava como começar a desculpar-me, e ela já havia colocado a criança no meu colo.
Não é possível: eu, um pastor, segurando nas mãos o “Salvador, o Cristo Senhor”, como dissera o anjo. Por sinal, quando ele apareceu para mim e para meus companheiros, deu-nos um sinal a respeito do Menino que nasceu para nós, na cidade de Davi: “Encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura” (Lc 2,12).
É este, não há dúvida. Mas é apenas uma criança, muito parecida com meus meninos, quando nasceram! Como é que o Filho de Deus pode ser assim – isto é, uma criança igual a tantas outras? E porque nasceu aqui, nesta gruta? Bem, se o anjo nos tivesse mandado ir a um palácio para ver o Salvador, nunca que eu iria lá e, certamente, nem meus companheiros. Quem deixaria um pastor como eu entrar num palácio? Com estas roupas? Mesmo que fosse, não teria coragem de levar o presente que trouxe aqui. Vi que, quando dei para Maria e José a única coisa que tinha comigo - o lanche que minha mulher preparara para esta noite -, me agradeceram tanto que parecia que lhes tinha dado o presente mais bonito e rico do mundo. Ia até pedir-lhes desculpas por não ter coisa melhor para oferecer-lhes, mas eles, parecendo saber o que ia lhes dizer, não me deixaram falar. Perguntaram-me se não queria tomar chá – e nesta noite fria, quem é que iria recusar?
Esta criança é o Filho do Altíssimo! Quando apareceram para nós e cantaram, os anjos nos falaram que os homens e as mulheres são amados por Deus. Ele deve nos amar muito mesmo! Eu não daria nenhum de meus filhos, nem para meu maior amigo, nem por todas as riquezas do mundo! E Ele está nos dando seu único Filho! É meu! Está aqui em minhas mãos! Tenho direito de dizer que é meu, pois o anjo falou claramente: “Nasceu para vós o Salvador!” Acho que é por isso que sua Mãe não está preocupada com minha falta de jeito, com meu braço duro e minhas mãos pesadas: sabe que tenho o direito de segurá-lo.
Vejo a impaciência de meus colegas pastores: também eles querem pegar o Salvador nas mãos. Tudo bem, vou entregá-lo. Afinal, ele nasceu também para eles. Mas a alegria que sinto por estar aqui, nesta noite, vendo o que estou vendo, essa alegria nunca, ninguém, vai me tirar, jamais! Ao contrário, farei questão de levá-la para todos os lugares em que for, para todas as pessoas que encontrar. Vou sair por aí, glorificando e louvando a Deus, por tudo o que estou vendo e ouvindo (cf. Lc 2,20). Pelo que conheço de meus colegas, não louvarei e glorificarei sozinho este Deus maravilhoso que, nunca tinha pensado!, é Pai! Ninguém vai conseguir calar a minha voz. Afinal, poderei dizer que o Salvador, o Cristo Senhor, esteve em minhas mãos: pude beijá-lo e acariciá-lo, e até lhe falei baixinho. Ele pode não ter entendido minhas palavras, mas vi que Maria e José escutaram e sorriram, quando lhe disse: “Jesus, eu te amo!”.
Agora estou entendendo o que quer dizer Emanuel: é Deus conosco! Antes eu sabia; agora, experimento em meu coração. Deus está comigo, está conosco, enche minha vida de esperança e de sentido. Deus-conosco, Deus-amor! É isso que estou descobrindo! Daqui para a frente, direi, tantas vezes quantas puder: Deus está no meio de nós! Ele tem o nosso rosto e nos ama! Ele veio para nos salvar! Glória a Deus no céu! Paz na  terra aos homens que Ele ama!

In www.cnbb.org.br > Articulistas > Dom Murilo S. R. Krieger

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