sábado, 19 de fevereiro de 2011

O dom da lucidez


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Um sublime diálogo entre Jesus e seus discípulos, tendo Pedro como figura central, teve um impressionante revés. O apóstolo, elogiado por ter feito uma sábia confissão, foi chamado por Jesus de satanás. Tal diálogo sinaliza dois extremos: um em que se vive movido pela ação de Deus e o outro em que o protagonista age como o diabo, dando rumo contrário ao que deve ser no âmbito dos sentimentos, das escolhas e da própria conduta. O evangelista Mateus, no capítulo 16 do seu Evangelho, conta esse episódio - sábia lição com advertências muito pertinentes pelos riscos que se corre na perda do dom da lucidez.
A articulação da inteligência, a clarividência, a capacidade de discernimento é um dom que faz falta em qualquer etapa da vida. A lucidez do jovem fecunda sua jovialidade com um tempero que não lhe permite perder o rumo. Nos adultos, é o fulcro do equilíbrio movendo suas ações e o exercício da responsabilidade de modo adequado, sempre considerando cada ato do qual dependem pessoas, a sociedade e as instituições. No idoso, a lucidez é ingrediente insubstituível. Garante que esse tempo seja vivido com aquela sabedoria que faz nascer a capacidade de congregar pessoas, de ser referência de desapego e ensinamento do caminho que dá gosto viver. Caminho da experiência, do encantamento pela vida e pelos outros, muito mais do que aquilo que já se fez e ajuntou como conquistas e louros. Na família, por exemplo, os avós são, de modo geral, essa referência admirável, vivem e se alimentam do encantamento que nutrem pelas conquistas dos filhos, dos netos...
O evangelista Mateus narra o diálogo que Jesus teve com seus discípulos na região de Cesareia de Filipe, quando fez a eles a pergunta: “Quem dizem as pessoas ser o Filho do Homem?”. A resposta de Pedro, sucinta e pertinente: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo”, deu oportunidade ao apóstolo - que foi escolhido por Deus para uma especial missão - de revelar o que o próprio Jesus afirmou. Veio da ação de Deus o fundamento da escolha de Pedro como pedra sobre a qual o Mestre quis edificar a sua Igreja. A ação amorosa e invisível do Pai compaginou no coração do apóstolo a verdade que sustenta o bem e alimenta o encantamento autêntico. O desdobramento triste vem a seguir, quando Jesus explicita aos seus discípulos a sua condição e missão de Cristo ao dizer-lhes da necessidade de ir a Jerusalém. Sua ida ao local - continuou a ensinar - incluiria sofrimentos impostos da parte dos anciãos, sumos sacerdotes e escribas. Ia ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar. Aquela palavra do Mestre fez trepidar o coração dos discípulos. A reação de Pedro revelou, também, o domínio que o maligno pode estabelecer sobre o coração humano. Esse domínio é, em sombras, a contraposição do dom da lucidez. Pedro, ao ouvir o que Jesus disse, desafiado pelas medidas de ofertas que o Mestre lhes indicava, oferta total de si, exigência de desapegar-se de egocentrismos doentios e fomentadores do ridículo, chamou Jesus à parte e, pretensiosamente, começou a censurá-lo: “Deus não permita tal coisa! Que isto nunca te aconteça”. Ao dizer isso, comprova que tem o coração apartado da verdade e do bem, apegado a si, aos próprios interesses e coisas, completamente opostos ao encantamento que só o amor produz. Jesus não titubeou em dizer-lhe: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu estás sendo para mim uma pedra de tropeço, pois não tens em mente as coisas de Deus, e sim, as dos homens”.
Esse episódio evangélico é a mais completa lição para se aprender as dinâmicas geradoras e mantenedoras do dom da lucidez, em cada etapa da própria vida. É dom, não é só fruto de um esforço pessoal. Supõe a abertura da mente e do coração para quem é a fonte do amor: Deus. Quando se caminha na contramão desse horizonte pedagógico, os feitos, os anos, as conquistas, os gestos, tudo fica obscurecido pela incapacidade do encantamento amoroso que faz nascer o dom da lucidez que, por sua vez, é a garantia de ler os fatos com sinceridade, sem rancores, sem apegos e sem desprestígios. Esse mal precisa ser evitado no coração de todo discípulo e discípula de Jesus Cristo. É o vetor que explica no mundo da política, das instituições e das confissões religiosas, os desatinos dos que manipulam, dominam, tentam perpetuar-se no poder, prometem e não cumprem, usufruem e não privilegiam, de fato, os pobres e os que têm mais direitos e necessidades.
Esta reflexão evangélica é oportuna, é como um farol que precisa projetar sua luminosidade sobre as mais diferentes situações da vida contemporânea, nas Igrejas, no Parlamento, nas instituições governamentais e outras. Também na vida familiar e pessoal para se medir, com precisão, o quanto é indispensável e está faltando o dom da lucidez.
FONTE: CNBB

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