sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Assim foi o natal de Jesus: silencioso


por Padre Ferdinando Mancílio, C.Ss.R.


 Senhor, hoje quero falar bem perto ao vosso coração. Permiti meu desabafo. Algumas coisas parecem pesar-me mais que minhas forças são capazes de suportar. Está chegando o dia em que a humanidade celebra o natal de vosso Filho. Esse dia foi tão bonito, até parece que o sol brilhou um pouco mais. Mas, na verdade, nada de especial ou de espetacular aconteceu. Tudo ocorreu em silêncio. E vosso amor foi rompendo a quietude e vossas obras foram embelezando o universo e só. Assim foi o natal de vosso Filho: silencioso, sem alarde, sem destaque, numa humilde estalagem.
   Desculpai-me Deus, mas acho que não fizestes as coisas direito não. Acho que se Jesus tivesse nascido de modo extraordinário, fantástico, com todas as câmeras para ele voltadas, o mundo iria lembrar-se um pouco mais de vosso Filho. Mas vós preferistes o silêncio. E aí as pessoas não escutam porque estão acostumadas com o barulho. E há, Senhor, tantos barulhos de ideias, de maus pensamentos, de planejamentos desumanos e que não contemplam a vida, mas a morte e a destruição. 
   Senhor, não estou querendo ser um anarquista, só quero compreender o mistério daqueles que dizem não ao amor, e sim para o consumo, para o prazer, para a autossuficiência. Mas também não quero ser injusto quando vemos a solidariedade e a preocupação com a vida, como a dos mineiros isolados lá no Chile aqueles dias. Quanta gente se uniu para que pudessem voltar à vida. Isso foi muito bonito, um sair de novo do útero materno. Foi a vitória da vida.
    Eu sei, Senhor, que não vou resolver as coisas sozinho, e minha reclamação não vai resolver nada. Eu quero sim reconhecer no natal vossa presença amorosa e misericordiosa entre nós. Todos recebemos tão nobre presente, o nascimento de Jesus, mas foram os pobres que o reconheceram por primeiro, e não mais se separaram dele. Quero, Senhor, que a festa pela vossa causa não seja uma afronta ao vosso amor, pois se há pobres que não festejam é porque há orgulhosos festejando o vosso nome mas estão longe de vós, pois não repartem nem se voltam para os menores no mundo. Pensando bem, acho que o Senhor tem razão:  é melhor o silêncio, porque assim vosso amor penetra mais profundamente nossa existência. Desculpai-me, Senhor, mas agora minha alma está aliviada, e obrigado por vosso presente, Jesus!

MANCÍLIO, Pe. Ferdinando. Revista de Aparecida (Ano IX-Nº105). Aparecida, 2010 - página 10.

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