sábado, 13 de novembro de 2010

Igreja servidora

Evangelização

por Dom Orani João Tempesta

O Fórum Nacional realizado nesta semana pelo Instituto Nacional de Altos Estudos nos trouxe a oportunidade de aprofundar a nossa presença para construir um Brasil desenvolvido, inclusive com oportunidade para favelas. A presença da Arquidiocese que traz em sua tradição uma enorme quantia de trabalhos e presenças sociais junto aos necessitados em uma “mesa redonda” foi a oportunidade de apresentar as nossas convicções e ações nessa área.
A ação pastoral da Igreja no Brasil orienta-se pelas exigências do serviço, diálogo, anúncio e testemunho. A solidariedade concretiza-se na dimensão do serviço. Amar é servir. A palavra “serviço” é a tradução da palavra grega diakonia. O “serviço” supõe o diálogo, faz acontecer o anúncio e é o testemunho concreto da vida cristã. Serviço é presença de amor, amizade e solidariedade junto aos pobres, aos que sofrem, aos doentes, aos famintos, aos encarcerados (cf. Mt 25), aos que não têm trabalho, aos que não têm teto, aos que são privados do cultivo correto e manual da terra. Presença por meio de pequenos gestos cotidianos, mas também através de projetos de promoção humana, de defesa dos direitos humanos, de promoção da cidadania. Enfim, trata-se de defender a vida, promover a paz, alicerçar a sociedade na justiça.
A Igreja fundamenta a dimensão do “serviço” na ação de Jesus Cristo, a quem “em todos os lugares onde entrava nas aldeias, nas cidades ou nos campos, traziam-lhe os doentes, nas praças, para que os curasse” (cf. Mc 6,56). O serviço se inspira nas palavras de Jesus: “quem quiser ser grande, seja o servidor, e quem quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. Mc 10,44-45). E ainda: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve!” (cf. Lc 22,27). É o serviço constante, eficaz, desinteressado e sacrificado que faz a diferença em nossa pregação. O Evangelho ensina que a medida, ou o critério do amor humano, da caridade e da solidariedade é o amor com que Cristo amou a humanidade: “dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (cf. Jo 13,34-35).
A Igreja Católica nos dias de hoje, como desde a sua fundação, sempre pautou a sua ação social e evangelizadora, deve apostar – redobradamente – na caridade, recorda-nos o Papa João Paulo II: “há na pessoa dos pobres uma presença especial de Cristo que impõe à Igreja uma opção preferencial por eles”. Diz ainda: “nosso mundo começa o novo milênio carregado com as contradições de um crescimento econômico, cultural e tecnológico, que oferece a poucos afortunados grandes possibilidades e deixa milhões e milhões de pessoas não só à margem do progresso, mas a braços com condições de vida muito inferiores ao mínimo devido à dignidade humana. Como é possível que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde abrigar-se?”. Que postura deve tomar a Igreja? “Devemos procurar que os pobres se sintam, em cada comunidade cristã, como ‘em sua casa’. A caridade das obras garante uma força inequívoca à caridade das palavras.”
Os documentos do Magistério da Igreja que formam o corpo da doutrina social inspiram e legitimam a ação solidária da Igreja toda e de cada cristão em favor dos trabalhadores, dos pobres, dos refugiados, das vítimas da fome, das guerras, de todo tipo de violência, impelindo a Igreja a ser instrumento da paz no mundo. A Doutrina Social da Igreja procura exprimir concreta e atualizadamente a prática de caridade dos cristãos. Por isso, ela ajuda a nortear a nós, católicos, em nosso modo de ser e de atuar na cidade. A Igreja conta com os fiéis leigos, tanto em seus grupos e comunidades, como também com a ação individual de cada um, para construir ou reconstruir a cidade à luz dessa caridade.
Presente na sociedade, a Igreja quer indicar caminhos de solidariedade aos pobres, construção da cidadania e da justiça, a primazia da ética nas relações econômicas, sociais e políticas, a defesa da vida desde o momento da concepção.
“As pastorais sociais na missão evangelizadora da Igreja representam significativa participação na construção de uma sociedade justa e solidária. Elas são presença privilegiada e despertam maior sensibilidade e atenção às contradições e aos conflitos da sociedade. Pelos seus compromissos concretos em defesa da vida e da dignidade dos pequenos, denunciam as estruturas sociais perversas que geram desigualdade e miséria e anunciam a justiça do Reino” (cf. Doc. CNBB 80, p. 94).
No âmbito de nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, somente no ano de 2009, através do balanço das atividades da Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro, teve mais de 2 milhões e 501 mil pessoas pelas paróquias da cidade. A isso deve se acrescentar muitas outras ações que não podem ser contabilizadas devido à falta de comprovantes. Juntem-se também os atendimentos de outras entidades ligadas à arquidiocese, como a Cáritas, o Banco da Providência, a Pastoral da Criança e outras, além dos trabalhos das escolas católicas, universidades, comunidades religiosas e grupos de leigos organizados.
Esses atendimentos não são esporádicos, mas fazem parte da tradição da Igreja desde o seu nascimento, recordando a criação do diaconato nos Atos dos Apóstolos ou ainda o martírio de São Lourenço nos tempos da Igreja Primitiva. Mais do que oferecer condições de dignidade, queremos fazer a inclusão. Que todos nós possamos fazer acontecer o Reino de Deus, ajudando os que mais necessitam: os refugiados, os idosos e os excluídos para que conheçam a face misericordiosa do Cristo Redentor, na grande rede de solidariedade, que, como consequência da missão evangelizadora, constitui as comunidades e paróquias de nossa arquidiocese.

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