domingo, 19 de setembro de 2010

Evangelho de Lucas

por Frei Ildo Perondi

São Lucas Evangelista


1. Introdução
 
            Lucas é o autor do Terceiro Evangelho e também do Livro dos Atos dos Apóstolos. Lucas é médico (cf. Cl 4,14) e acompanhou o Apóstolo Paulo em sua missão. Ele é grego e não conheceu Jesus pessoalmente. Porém, para escrever seu Evangelho, ele fez uma pesquisa muito bem feita (cf. Lc 1,1-4). No esquema de Lucas, o Antigo Testamento foi o tempo da Promessa e da preparação de um povo. Com Jesus temos o anúncio do Reino de Deus. Jesus é o cumprimento das promessas. Em seguida começa o tempo em que o Reino e a mensagem de Jesus devem ir pelo mundo todo. É o tempo da Igreja. Poderíamos ver o seguinte esquema:
 
 
Antigo Testamento
DEUS PAI
Evangelho de Lucas
JESUS CRISTO (FILHO)
Atos dos Apóstolos
ESPÍRITO SANTO
Tempo da Promessa e Aliança
Preparação do povo de Deus
Reinado de Deus
Tempo de Jesus
Vinda e atividade de Jesus
Anúncio do Reino de Deus
Tempo da Igreja
Primeiras Comunidades
Expansão a todo o mundo
 
            O Evangelho de Jesus inicia e termina no Templo (1,5s; 24,53). Lucas narra os dois anúncios de nascimentos em forma paralela. Existem semelhanças e diferenças significativas:
 

Algumas semelhanças

Algumas diferenças

- Os dois anúncios são feitos pelo Anjo Gabriel.
- Os dois anúncios são sobre nascimento de
crianças
- Em ambos o Anjo diz: “não tenha medo”.
- Nos dois anúncio, já vem a missão daquele que
vai nascer.
- O primeiro anúncio é ao pai; o segundo à mãe.
- O primeiro se dá no templo e o segundo é feito
em uma casa.
- A origem de João é humana; de Jesus é divina;
- Zacarias duvida e por isso fica mudo. Maria
questiona, mas não duvida.
 
            2. Preparação e tentações:
 
            Encontramos João Batista que faz a preparação para a atividade de Jesus. Depois vemos que Jesus também se prepara. Vai ao deserto. No Antigo Testamento, o deserto foi o lugar onde o povo de Deus se preparou para a entrada na Terra Prometida. Jesus também vai ao deserto. Ali fica em oração, jejua, depois volta sempre conduzido pelo Espírito. É assim “abastecido” que Jesus enfrenta as tentações: ter, poder, prazer... Interessante notar como o tentador utiliza a Escritura para tentar Jesus. O diabo perde e deixa Jesus, mas o Evangelista adverte que ele voltará no tempo oportuno (22,3.53), isto é, na Paixão de Jesus, tentando fazer Jesus abandonar o seu projeto. Mas Jesus é fiel aqui no início e será também lá na hora da cruz.
           
            3. O projeto de Jesus (Lc 4,14-22):
 
            Jesus volta do deserto e não vai para Jerusalém, isto é, para o centro do poder. Ele vai para a Galiléia, que é a periferia, onde moram e vivem os pobres e onde a opressão é maior. É da periferia que Jesus faz irromper seu projeto na história e não do centro.
            Jesus vai a sinagoga em dia de Sábado. Este dia era importante para os judeus, pois foi o Dia em que Deus descansou da sua obra. Os judeus também repousavam neste dia e iam à sinagoga rezar e estudar a Torá (Lei). Na sinagoga Jesus faz a segunda leitura (a primeira era do Pentateuco e não podia ser mudada, no decorrer de um ano eles liam todos os cinco primeiros livros da Bíblia). A segunda leitura podia ser escolhida. Jesus escolhe o texto de Is 61,1-4 (Lucas cita com algumas modificações). Depois da leitura todos ficaram olhando para Jesus. Eles conheciam o texto que Jesus leu. A expectativa era para ver qual era a interpretação que ele iria dar. Jesus diz: “Hoje se cumpriu esta passagem”. Ou seja, Jesus assumiu o compromisso de viver e levar adiante o projeto anunciado por Isaías, que consistia em:
            a) Anunciar a boa notícia aos pobres. O Reino de Deus é dos pobres e eles são os destinatários privilegiados por Jesus. Não devemos aqui buscar os “pobres em espírito” ou espiritualizar o texto.
            b) Proclamar a libertação dos presos: Na região da Galiléia havia muitos presos, sobretudo políticos, porque aí haviam revoltas contra os romanos e aí atuavam os zelotes. Portanto, era uma notícia que interessava a muitas famílias da região que possuíam algum filho ou parente preso.
            c) Recuperar a vista aos cegos: Devemos entender os três tipos de cegos que existiam: cegos que tinham problemas de saúde e não enxergavam bem; cegos por causas políticas (os romanos algumas vezes furavam o olho de quem passava pelas prisões); e os alienados, que não enxergavam “um palmo na frente do nariz”, isto é, vítimas da opressão e que não percebiam a dominação.
            d) A liberdade aos oprimidos: A opressão era sentida pelos pobres, mas também por todo o povo. Era a opressão romana, do império estrangeiro (como os USA fazem hoje no mundo), mas também a repressão de Herodes, governador da Galiléia e que era judeu. E havia a opressão da Lei, isto é, da religião que exigia tantas coisas que o povo não podia cumprir[1].
            e) Proclamar o Ano da Graça do Senhor: Este talvez era o ponto mais importante. O Ano Jubilar devia acontecer a cada 50 anos (cf. o Levítico 25). Porém nunca havia mesmo sido colocado em prática. Seria o tempo em que a terra voltaria aos seus antigos donos; os presos e escravos seriam libertados; e as dívidas seriam perdoadas... Quem não gostaria que isso acontecesse?
            Este anúncio deixou todos “admirados”... Em Lucas esta expressão aparece muitas vezes. Vamos ver que tudo o que Jesus diz ou faz deixa o povo “admirado”...
           
            4. A prática na Sinagoga (Lc 6,6-11): 
           
Jesus está de novo na sinagoga e outra vez em dia de sábado. E ali ensinava. Estavam ali alguns que não queria ouvi-lo, mas queriam espiar, isto é, ver bem o que ele ia fazer. Neste dia estava presente um homem com uma mão atrofiada. Estava sentado no chão, fora do grupo. Não foi o homem que pediu para ser curado. Ele sabia que não podia fazer isso em dia de sábado. Mas foi Jesus que tomou a iniciativa. Jesus pediu que o homem ficasse de pé e que viesse para o meio da assembléia. Jesus começa a falar e depois ordena que o homem estenda a mão e ela ficou curada. Os espiões não ficaram “admirados”, mas começaram a tramar o que deveriam fazer com Jesus.
            A atitude de Jesus com o homem é bonita. Jesus vê quem está fora do grupo, excluído da assembléia. Lembramos que a iniciativa foi de Jesus, pois não foi o homem que pediu para ser curado. “Perceber quem está fora; levantar os caídos e colocá-los no meio, incluí-los na sociedade!”  esta é nossa tarefa também. É tarefa da nossa Igreja hoje, ainda que sempre existam aqueles que espiam.
 
            5. O Reino de Deus:
 
            Jesus dá um nome ao projeto que ele vem anunciar: o Reino de Deus! Esta expressão é usada em Lucas e Marcos[2]. Já no Antigo Testamento, quando o povo de Deus saiu da escravidão do Egito e entrou na Terra Prometida, se dizia que era Deus que reinava sobre o povo, e se falava do Reinado de Deus. Esta sociedade se chamava tribalismo. Mas depois de um tempo veio a monarquia. E parece que esta mudança não agradou muito a Deus (veja o texto de 1Sm 8,1-22. Veja também Jz 8,23). Portanto, o povo de Deus queria livrar-se da opressão e esperava que Deus outra vez voltasse a reinar no meio do povo.
            Jesus não só anuncia o Reino de Deus, mas começa a colocá-lo em prática e por isso, vai até os pobres e abandonados, defende os oprimidos, cura os doentes, e toda a sua prática é em vista do Reino de Deus.
 
            6. As Bem-aventuranças (Lc 6,20-26):
           
Em Lucas 6,20-23 também encontramos as Bem-aventuranças. Porém, o texto é bastante diferente daquele de Mateus (veja Mt 5,1-12). Em Mateus as bem-aventuranças são anunciadas no monte; em Lucas o anúncio é na planície. Em Lucas são apenas quatro as bem-aventuranças e logo em seguida temos também as maldições (Lc 6,24-26), ou seja, um “ai de vós”, correspondente a cada uma das bem-aventuranças.
            Com este anúncio Jesus quer nos mostrar que o Reino de Deus deve ser de alegria, deve trazer esperança aos pobres, a quem tem fome, a quem hoje chora e a quem está sendo perseguido por causa de Jesus.
 
            7. O Pai Nosso (Lc 11,1-4)
           
Muitos biblistas pensam que esta fórmula do Pai Nosso seja aquela que Jesus rezou. Ela é mais curta do que a oração que está no Evangelho de Mateus que já pode ter incluído o modo como o Pai Nosso era rezado na Igreja primitiva (Mt 6,9-13). Em Lc o texto é mais sintético.
            Em primeiro lugar, a oração é dirigida a Deus Pai, seu Nome deve ser santificado. Assim Jesus segue a tradição judaica de ter respeito com o nome de Deus, e acompanha o Profeta Isaías que defendi tanto a santidade de Deus. Deus é “Santo, Santo, Santo” (Is 6,3) e por isso o povo também deve ser santo.
            Depois devemos pedir que o Reino venha. O Reino é antes de tudo de Deus e por isso, devemos pedi-lo. Mas, o reino é também nosso, e por isso devemos anunciá-lo e colocá-lo em prática.
            Pedimos a Deus o pão cotidiano, de cada dia, ou “o pão de amanhã”, como sugerem algumas traduções. Aqui Jesus continua seguindo fiel ao AT. Lá na dura caminhada pelo deserto foi o Senhor Deus que mandou o maná para saciar a fome do povo. Deus continua sendo o Deus que acompanha o seu povo.
            Pedimos também a Deus o perdão dos nossos pecados. Jesus sabe que somos humanos, e que por mais santos que sejamos, sempre teremos os nossos pecados contra os outros e contra Deus. Mas Jesus dá uma condição: nós queremos que Deus nos perdoe do mesmo modo que nós perdoamos os nossos irmãos. Por isso, para sermos perdoados por Deus, precisamos também perdoar.
            Por fim, Jesus pede que Deus não nos deixe cair na tentação. Ele mesmo foi tentado e venceu. Todos estamos sujeitos s sermos tentados (poder, ter e prazer). Jesus não pede que não tenhamos tentações, mas que tenhamos forças para não cair nelas...
 
            8. A compaixão e misericórdia de Jesus:
           
Lucas é um médico e por isso se interessa muito pelas emoções das pessoas, e por isso freqüentemente mostra como Jesus tem compaixão e misericórdia do povo, sobretudo dos mais pobres e dos doentes.
            Lucas também faz questão de dizer que no momento da oração no Horto das Oliveiras Jesus “suou sangue” (22,44). Só um médico poderia afirmar isso, com certeza.
 
 
 
            9. Jesus caminha conosco! (Lc 24,13-35)
 
            O texto de Lucas 24,13-35 (é mais conhecido como “Os discípulos de Emaús”) e é um dos mais bonitos da Bíblia e que pode ser interpretado de tantas maneiras, e que tanto pode nos ajudar na nossa caminhada. Vamos ver alguns pontos importantes que nos ajudam a entender melhor a sua mensagem:
 
1.         Dois discípulos caminham e estão com medo (motivos para o medo é que não faltam!). Fogem da cidade grande, fogem do lugar onde mataram o Mestre. Só sabemos o nome de um deles (poderiam muito bem ser um casal, pois só um fala -  homem; no final da caminhada entram numa casa, estão á mesa).
 
2.         Jesus se “aproxima” deles. A iniciativa é de Jesus. E começa a caminhar com eles.
 
3.         Jesus faz uma perguntinha. Nem precisava, Ele conhecia o problema e o medo deles. Mas Jesus se faz de desconhecido. Chega até a receber uma repreensão: “És o único forasteiro que não sabes?”. Os olhos deles estão fechados. E seu rosto está sombrio.
 
4.         Jesus escuta, gasta tempo em ouvir a história deles. Só um deles fala. Vejam por quanto tempo Jesus ficou escutando... Quem está angustiado e com medo, precisa ser escutado, para depois ser animado.
 
5.            Chegou a vez de Jesus também dar uma repreensão a eles: “Como vocês são lerdos para entender!”. O medo muitas vezes existe dentro de nós, porque deixamos que ele nos feche os olhos.
 
6.         Jesus começa a usar a Bíblia. Jesus mostra que conhece bem a Bíblia. Jesus começa por Moisés e percorre todos os Profetas (isso significa todo o AT). Usa o texto certo, na hora certa, para as pessoas certas, do jeito certo (como a canção do Pe. Zezinho).
 
7.            Chegam à encruzilhada. Jesus faz de conta que vai embora. Eles o convidam à entrar na casa: “Fica conosco...” Isso mostra que ele já não é um estranho. Só convidamos para entrar na casa quem nós conhecemos...
 
8.         Jesus abençoa e parte o pão. Assim como a Palavra alimentou o espírito deles, o corpo também precisa ser alimentado e nutrido. Pão a ser partilhado, deve ser pão abençoado.
 
9.            Quando Jesus se torna refeição, entra dentro deles e por isso “pode ir embora fisicamente”. Mesmo ficando invisível, Jesus continua com eles.
 
10.      Eles então começam a refletir. Lembram-se dele, como Ele caminhou com eles, das coisas que Ele falou...
 
11.      Os discípulos recordam o efeito da Palavra “ela fez o coração arder” – “pegar fogo!”.             Mas o que fez eles abrirem os olhos foi o gesto da partilha.
 
12.      Então decidem retornar. Voltar de onde partiram. Agora já é noite. Mas já não existe             mais o medo. Voltam para a cidade assassina. Vão encontrar os outros irmãos que     estão com medo.
 
13.      Jesus caminhou com os discípulos que estavam tristes e com medo. E Jesus caminha conosco e podemos encontrá-lo sempre:
            a) quando fazemos as nossas caminhadas (sobretudo se estamos tristes e com medo);
            b) quando ouvimos a Palavra de Deus;
            c) quando o convidamos para entrar na nossa casa e no nosso coração;
            d) quando comungamos e partimos o pão;
            e) quando vamos à comunidade que se encontra reunida.


[1] Segundo os escribas e fariseus, o reino de Deus e o Messias só viriam quando o povo conhecesse e cumprisse a Lei. Havia 613 preceitos que todo “bom judeu” devia cumprir. 365 preceitos (número dos dias do ano) eram negativos: “Tu não farás...” e 248 (número total de ossos do corpo) eram positivos (“Tu farás...”).
[2] No Evangelho de Mateus, a mesma expressão tem o nome de Reino dos Céus (ou “do Céu”, que é a mesma coisa. No hebraico a palavra é “há-shamaim” é plural e pode ser traduzida por “céu” ou “céus”). Mateus usa Reino “dos Céus” pois escreve a judeus, e evita de pronunciar o nome de Deus, como era costume entre os judeus daquele tempo. No Evangelho de João “Reino de Deus” só aparece duas vezes e no sentido escatológico. João prefere usar a palavra “vida” para indicar o projeto de Jesus “Eu vim para que todos tenham Vida e Vida em abundância” (Jo 10,10).

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